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Prótese parafusada ou cimentada sobre implante: por que essa escolha importa

A forma de fixar a coroa ao implante influencia manutenção, estética e risco de inflamação. Entenda por que excesso de cimento é um problema real e o que mostram os estudos comparativos.

Dr. Michel Moraes · CRO-PR 36070Publicado em 02 de novembro de 2026 5 min de leitura
Ilustração de fixação parafusada e cimentada de coroas sobre implante

Imagem ilustrativa gerada por IA; não representa paciente ou resultado do Dr. Michel Moraes.

Por que um artigo sobre isso

Parece um detalhe técnico que só interessa ao dentista. Não é.

Essa escolha determina, na prática, o que acontece daqui a alguns anos quando algo precisar de ajuste: se a coroa pode ser removida e recolocada, ou se ela precisará ser destruída para acessar o que está embaixo.

E, mais importante, ela está diretamente ligada a uma das causas evitáveis de inflamação em volta de implantes.

Esquema ilustrativo de duas formas de retenção protética

Ilustração gerada por IA. Esquema simplificado, sem escala; detalhes dos componentes variam.

As duas formas de fixação

Parafusada. A coroa é presa ao implante por um parafuso que atravessa seu interior. O orifício de acesso, na face de mastigação ou na face de trás, é depois fechado com material restaurador.

Cimentada. Um pilar é parafusado ao implante, e a coroa é cimentada sobre esse pilar, exatamente como uma coroa seria cimentada sobre um dente preparado.

Comparativo

CritérioParafusadaCimentada
Remoção pelo dentistaSimples, sem destruir a peçaGeralmente exige destruir a coroa
Risco de excesso de cimento sob a gengivaNão existeExiste e é relevante
Estética em dentes anterioresOrifício de acesso pode aparecerSuperfície contínua, sem orifício
Tolerância a implante anguladoMenor, salvo com componentes específicosMaior
Complicação mais comumAfrouxamento do parafusoPerda de retenção, excesso de cimento
Facilidade de reparoAltaBaixa
Adequação a próteses extensasAltaMenor
Espaço vertical necessárioMenorMaior, para altura de pilar

O problema do cimento: o que a literatura mostra

Este é o motivo principal pelo qual a odontologia contemporânea migrou fortemente para as próteses parafusadas.

Quando a coroa é cimentada, o excesso de cimento é expelido pelas bordas. Se a margem da coroa está acima da gengiva, o excesso é visível e removido facilmente. Se ela está abaixo da gengiva — o que é comum em regiões estéticas — o excesso pode escapar da inspeção e permanecer ali.

Cimento retido sob a gengiva funciona como corpo estranho. Ele mantém irritação constante nos tecidos, acumula biofilme e está associado ao desenvolvimento de inflamação peri-implantar.

O agravante é que o diagnóstico é difícil. O cimento nem sempre aparece em radiografia, dependendo do material, e o quadro costuma ser indolor.

Uma revisão sistemática com metanálise sobre coroas unitárias de zircônia sobre implante comparou as duas formas de retenção e registrou que as restaurações parafusadas apresentaram 46% menos risco de complicações do que as cimentadas (risco relativo de 0,54; p = 0,02). O mesmo trabalho registrou menor perda óssea marginal precoce nas parafusadas, com valores de perda óssea comparáveis entre os grupos ao longo do tempo.

Onde a cimentada ainda faz sentido

Não se trata de abandonar a técnica. Ela tem indicações claras:

  • Implante com angulação desfavorável, em que o parafuso emergiria pela face visível do dente anterior. Existem soluções de canal angulado, mas nem sempre são aplicáveis.
  • Necessidade de estética máxima em superfície sem interrupção.
  • Espaço vertical amplo, que comporta a altura do pilar.
  • Correção de pequenas desadaptações entre a posição do implante e a posição ideal da coroa.

A regra de segurança, quando a cimentada é escolhida: manter a margem da coroa o mais próximo possível do nível da gengiva, idealmente supragengival ou minimamente subgengival, para que o excesso possa ser visto e removido.

Existem também técnicas específicas de controle de excesso, como o uso de réplica do pilar para remover o cimento fora da boca antes da cimentação definitiva.

O afrouxamento de parafuso

Do outro lado, a prótese parafusada tem sua complicação característica. Dados de revisão sistemática sobre coroas unitárias sobre implantes registram, em cinco anos, taxa de 8,8% de afrouxamento de parafuso, 4,1% de perda de retenção e 3,5% de fratura do material de recobrimento.

Afrouxamento de parafuso é um evento manejável: o dentista abre o acesso, reaperta com torque controlado e refecha. É desconfortável, mas não compromete o implante.

O que aumenta o risco:

  • Torque de aperto inadequado na instalação.
  • Ausência de reaperto após o período inicial de acomodação.
  • Sobrecarga por bruxismo ou por contatos oclusais mal ajustados.
  • Componentes de compatibilidade duvidosa.

A prótese fixa de arcada completa

Em reabilitações de arcada inteira, a discussão praticamente se encerra em favor da parafusada.

O motivo é prático: uma prótese de arcada completa precisa ser removida periodicamente para higienização dos componentes, avaliação dos tecidos e eventuais reparos. Se ela for cimentada, cada manutenção exigiria destruir a peça.

Além disso, o risco de excesso de cimento se multiplica pelo número de pontos de fixação.

Em resumo

  • A escolha entre parafusada e cimentada define se a coroa poderá ser removida sem ser destruída.
  • Excesso de cimento sob a gengiva é causa evitável de inflamação peri-implantar, e é difícil de diagnosticar.
  • Coroas parafusadas apresentaram 46% menos risco de complicações em metanálise recente.
  • A cimentada segue indicada em angulação desfavorável e em situações de exigência estética máxima.
  • Quando cimentada, a margem deve ficar o mais próxima possível do nível gengival.
  • Afrouxamento de parafuso ocorre em cerca de 8,8% em cinco anos e é manejável.
  • Em prótese fixa de arcada completa, a parafusada é a escolha padrão.

Aviso Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui avaliação clínica individual. A escolha do sistema de retenção é definida pelo cirurgião-dentista conforme a posição do implante, a exigência estética e o tipo de reabilitação planejada.

Referências

  1. Evaluating complications, success rate, and marginal bone loss in cement- versus screw-retained single implant-supported zirconia crowns: a systematic review and meta-analysis. PMC12127220
  2. Jung RE, Zembic A, Pjetursson BE, Zwahlen M, Thoma DS. Systematic review of the survival rate and the incidence of biological, technical, and aesthetic complications of single crowns on implants. Clinical Oral Implants Research. 2012
  3. Classificação de Doenças e Condições Periodontais e Peri-implantares — Workshop Mundial AAP/EFP, 2017. Journal of Clinical Periodontology
  4. Amorfini L, Storelli S, Mosca D, Scanferla M, Romeo E. Comparison of cemented vs screw-retained, customized CAD/CAM zirconia abutments for esthetically located single-tooth implants: a 10-year randomized prospective study

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Perguntas frequentes

Como sei qual tipo tenho?

Coroas parafusadas costumam ter um pequeno círculo de material restaurador na face de mastigação ou na face de trás, correspondente ao acesso do parafuso. Seu dentista consegue identificar em exame e a informação deve constar no prontuário.

O buraquinho da coroa parafusada aparece?

Em dentes posteriores, fica na face de mastigação e não é visível na conversa. Em dentes anteriores, o planejamento busca posicioná-lo na face de trás. Quando isso não é possível, a cimentada pode ser a melhor escolha.

Se o parafuso soltar, perdi o implante?

Não. Afrouxamento de parafuso é uma complicação mecânica, não uma falha do implante. Procure o dentista sem tentar reapertar por conta própria, porque a coroa pode fraturar se for usada com o parafuso solto.

Excesso de cimento sempre causa problema?

Não sempre, mas está associado a inflamação e perda óssea em uma parcela relevante dos casos. Por isso a prevenção durante a cimentação é tão enfatizada.

Dá para converter uma coroa cimentada em parafusada?

Em geral não sem refazer a peça. A decisão é tomada no planejamento protético, antes da confecção.

Qual das duas dura mais?

As duas apresentam sobrevivência alta e semelhante. A diferença relevante está no perfil de complicações e na facilidade de manutenção, não na longevidade da peça em si.

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Conteúdo informativo, sem promessa de resultado. Atualizado em 13 de outubro de 2026. Responsável técnico: Dr. Michel Moraes, CRO-PR 36070.

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